A Poesia da Madeira e das Palavras: A Jornada de José Costa Leite Pela Arte Popular Brasileira
A Poesia da Madeira e das Palavras: A Jornada de José Costa Leite P
Na vibrante tapeçaria da arte popular do Nordeste brasileiro, poucas figuras brilham tão intensamente quanto José Costa Leite (1927-2021), um homem que esculpiu seu caminho no coração da cultura popular com nada mais do que blocos de madeira, tinta e uma imaginação inesgotável. Nascido na pequena cidade de Sapé, Paraíba, Costa Leite se tornaria um dos mais prolíficos xilogravadores (artistas de xilogravura) e poetas de cordel do Brasil, criando um legado que se estende por mais de sete décadas e milhares de obras que capturam a alma do Nordeste brasileiro.
A história de Costa Leite começa nas paisagens rurais da Paraíba, onde ele nasceu em 27 de julho de 1927, filho de Paulino Costa Leite e Maria Rodrigues dos Santos. Em um testemunho do poder transformador da cultura popular, este futuro mestre das palavras e imagens nunca frequentou a escola formal. Em vez disso, ele aprendeu a ler soletrando os versos dos folhetos de cordel — aqueles pequenos livretos ilustrados que há muito tempo são o jornal, o entretenimento e a bússola moral das classes trabalhadoras do Nordeste do Brasil.
Essa educação não convencional se mostraria profética. O mesmo meio que o ensinou a ler se tornaria o trabalho de sua vida, sua tela e sua voz. Quando sua família se mudou para Pernambuco em 1938, o jovem José já estava absorvendo os ritmos, histórias e a linguagem visual que definiriam sua prática artística. Em 1955, ele havia se estabelecido permanentemente em Condado, Pernambuco, uma cidade que se tornaria sinônimo de seu nome no mundo da arte popular brasileira.

Imagem da pesquisa do Google Imagens. Uso educacional.
A entrada de Costa Leite no mundo da literatura de cordel ocorreu em 1947, quando ele começou a escrever, vender e recitar folhetos em feiras locais. Esses primeiros versos, como observado pela Universidade Federal da Paraíba, eram imitações de estilos de cordel existentes—um método tradicional de aprendizado na cultura popular brasileira onde jovens artistas aprendem copiando mestres antes de desenvolverem sua própria voz.
Mas Costa Leite estava destinado a mais do que a imitação. Em 1959, ele havia criado seu primeiro almanaque popular, inicialmente chamado de "Calendário Brasileiro", marcando o início do que se tornaria uma tradição anual. Esses almanaques, repletos de previsões, conselhos, humor e sabedoria popular, tornaram-se publicações ansiosamente aguardadas em todo o Nordeste, estabelecendo Costa Leite não apenas como um poeta, mas como um comentarista cultural e filósofo popular.

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Enquanto suas palavras cativavam corações, foi o domínio de Costa Leite da xilogravura—a arte da impressão em madeira—que realmente o diferenciava. Na tradição da literatura de cordel, as imagens não são mera decoração, mas elementos narrativos essenciais que trabalham em harmonia com o texto para contar histórias, transmitir emoções e capturar a imaginação de públicos frequentemente semianalfabetos.
As xilogravuras de Costa Leite são caracterizadas por suas linhas fortes, rostos expressivos e composições dinâmicas. Sua técnica autodidata, desenvolvida ao longo de décadas de prática, criou uma linguagem visual distinta que podia transmitir narrativas complexas em uma única imagem. Seja retratando heróis populares, figuras religiosas, comentário político ou cenas da vida cotidiana, suas xilogravuras possuem uma imediatidade e ressonância emocional que fala diretamente à experiência do espectador.

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O artista assinava suas obras visuais como "JCL," uma assinatura que se tornou uma marca de qualidade e autenticidade no mundo da arte popular brasileira. Suas imagens adornavam não apenas seus próprios folhetos de cordel, mas também obras de outros poetas, tornando-o um dos xilogravadores mais prolíficos e reconhecíveis de sua geração.
A importância de Costa Leite se estende muito além de sua produção artística. Conforme observado pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte, ele era "uma verdadeira máquina criativa", produzindo inúmeros textos e imagens que retratavam "com muita poesia, humor, perspicácia e beleza — a realidade e o imaginário do povo nordestino". Sua obra serve tanto como espelho quanto como memória para uma cultura frequentemente marginalizada na narrativa nacional do Brasil.

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O reconhecimento de sua importância cultural veio de múltiplas instituições. O governo de Pernambuco o homenageou como um "Patrimônio Vivo", reconhecendo seu papel na preservação e transmissão
O que torna o trabalho de Costa Leite particularmente valioso é sua função como um arquivo vivo da cultura do Nordeste brasileiro. Suas histórias de cordel e xilogravuras documentam tudo, desde lendas locais e festivais religiosos até eventos políticos e mudanças sociais. Através de sua arte, podemos traçar a evolução da sociedade rural brasileira, o impacto da modernização e a persistência dos valores tradicionais diante da mudança.
Sua versatilidade como poeta e artista visual permitiu-lhe capturar todo o espectro da experiência humana no Nordeste. Seja contando histórias do lendário bandido Lampião, comentando sobre política contemporânea, ou compartilhando sabedoria popular através de seus almanaques, Costa Leite serviu como uma ponte cultural, conectando o conhecimento tradicional com as preocupações contemporâneas.
José Costa Leite faleceu em 2021, deixando um legado monumental que continua a influenciar a cultura popular brasileira. Suas obras permanecem em coleções em todo o Brasil e além, estudadas por acadêmicos e valorizadas por colecionadores. Mais importante ainda, sua abordagem artística—a integração perfeita de palavra e imagem, o compromisso com a acessibilidade popular e a celebração da cultura nordestina—continua a inspirar novas gerações de artistas.
Numa era de mídia digital e globalização, o trabalho de Costa Leite nos lembra do poder duradouro da arte feita à mão e da narrativa enraizada localmente. Suas xilogravuras e versos de cordel se erguem como monumentos à resiliência criativa da cultura popular brasileira, provando que a arte mais profunda muitas vezes emerge não de academias ou galerias, mas da experiência vivida das comunidades e das mãos hábeis daqueles que servem como sua voz.
Fontes:
(1) Universidade Federal da Paraíba - https://www.ufpb.br/pinacoteca/acervo/colecao-pinacoteca-ufpb/jose-costa-leite/
(2) cultura.pe.gov.br - https://www.cultura.pe.gov.br/pagina/patrimonio-cultural/imaterial/patrimonios-vivos/jose-costa-leite/
(3) Universidade Federal do Rio Grande do Norte - https://mcc.ufrn.br/acervo/etnologia/jose-costa-leite
Imagem de capa: Imagem da pesquisa do Google Imagens. Uso educacional.
Este artigo faz parte do Arquivo CASCA, documentando artistas visuais do Nordeste do Brasil. História sobre José Costa Leite.