Mestre Dila e o teatro xilográfico do Agreste
José Soares da Silva, conhecido como Mestre Dila, fez da xilogravura um teatro compacto para a memória falada do Nordeste. Nascido em 1937 e ligado ao Agreste pernambucano, fixou-se em Caruaru nos anos 1950, onde feiras, jornais locais, folhetos de cordel e pequenas oficinas formaram a escola prática de sua imagem. Seu trabalho circulou entre escrever, editar, imprimir e gravar: compôs histórias de cordel, entalhou matrizes em madeira e borracha vulcanizada, imprimiu rótulos, ilustrou livros e produziu imagens para outros poetas, incluindo J. Borges. Em 2002, Pernambuco o reconheceu como Patrimônio Vivo, sinal de que seu ofício pertencia não apenas a um artista, mas a um vocabulário cultural compartilhado. See also José Altino: Onde Linhas Marcantes Revelam a Anatomia do Nordeste.



As xilogravuras de Dila ganham força quando parecem condensar uma narrativa inteira em uma única organização de preto e branco. As figuras são frontais, rítmicas e levemente indomáveis; animais, diabos, santos, cangaceiros e heróis populares aparecem menos como ilustrações do que como atores entrando em uma cena já em movimento. A Revista Continente descreveu o ateliê em Caruaru como um mundo à parte, cheio de matrizes, tipos, objetos em miniatura e ferramentas manuais; esse ambiente ajuda a explicar o equilíbrio estranho entre rigor e fantasia. Dila gravava com atenção de impressor à leitura imediata, mas recusava o realismo plano, preferindo o registro fantástico que fazia Lampião, Padre Cícero, peripécias do diabo e invenção sertaneja conviverem na mesma folha. Três referências ajudam a situar esse repertório: Dila fez a capa de Encontro Vaqueiros (1964), de J. Borges, desenvolveu o cangaço fantástico de Os Lampiões (1976), e aparece no acervo do Museu de Folclore Edison Carneiro com Roldão Argolinha (1978), do álbum A História de Roldão. "Para o cordel vender bem, tem que ter boa xilogravura", disse Dila em perfil da Cultura PE. See also Delson Uchoa e a Latitude da Cor.



As dez xilogravuras reunidas aqui vêm de registros da Galeria Pontes dedicados a Mestre Dila e identificados como xilogravura. Vistas em conjunto, mostram como ele precisava de pouco para criar tensão narrativa: um chapéu inclinado, um perfil cortante, uma moldura, uma linha de letreiro, um braço erguido, um animal ou um santo podiam carregar todo o drama. A escala é modesta, muitas vezes em torno de 22 por 32 centímetros, mas as imagens se comportam como fala pública. Foram feitas para circulação, memória e reconhecimento, não para distância. Por isso a linha impressa importa tanto: ela mantém a história disponível ao olhar antes mesmo da leitura do texto.



Para o CASCA Archive, Dila importa porque sua prática não separa a arte dos sistemas que a carregaram: a feira, o folheto, a prensa, o rótulo, a oficina, o conto oral e a banca de venda. Ele morreu em Caruaru em dezembro de 2019, mas suas imagens ainda guardam a energia de um arquivo popular em funcionamento. Preservam o cangaço como performance, a crença como forma gráfica e o humor como inteligência. Em cada corte, Dila transforma a matriz em um lugar onde o Nordeste narra a si mesmo com velocidade, exagero e precisão.