As Crônicas do Cangaço: O Legado da Xilogravura
As Crônicas do Cangaço: O Legado de Mestre Dila
Nas ruas empoeiradas de Caruaru, onde o cheiro de couro se mistura com o ritmo da música de forró, uma revolução silenciosa nas artes visuais brasileiras se desenrolou por mais de oito décadas. José Soares da Silva, conhecido no mundo como Mestre Dila, empunhava suas ferramentas de xilogravura como a caneta de um contador de histórias, transformando blocos de madeira em janelas para as narrativas folclóricas mais cativantes do Brasil. Quando ele faleceu em dezembro de 2019, aos 82 anos, o Brasil perdeu não apenas um artista, mas um guardião de sua alma cultural.
Nascido em 23 de setembro de 1937, na pequena cidade de Bom Jardim, Pernambuco, Dila acabaria por se estabelecer em Caruaru, tornando-se um dos mais celebrados praticantes da xilogravura—a técnica tradicional brasileira de impressão em madeira que tem sido a espinha dorsal visual da literatura de cordel por gerações. Sua jornada de um menino do campo a um "Patrimônio Vivo" (Living Heritage) do estado de Pernambuco reflete o poder duradouro da arte popular para transcender fronteiras sociais e falar verdades universais.
O universo artístico de Dila era povoado por dois temas dominantes que capturaram a imaginação do Nordeste do Brasil: os lendários cangaceiros e as aventuras travessas de personagens diabólicos. Estas não eram meras ilustrações decorativas—eram narrativas visuais que davam vida às tradições orais transmitidas através de gerações da cultura sertaneja. Seu trabalho serviu tanto como entretenimento quanto como documentação histórica, preservando histórias que de outra forma poderiam desaparecer na memória.
Como mestre da xilogravura, a prática artística de Dila estendeu-se muito além das capas tradicionais de folhetos de cordel. Ele criou álbuns policromáticos que exibiam todo o espectro de suas habilidades técnicas, projetou rótulos para bebidas e medicamentos locais e ilustrou livros e diversas publicações. Cada peça demonstrava sua notável capacidade de comprimir narrativas complexas em imagens únicas e poderosas que podiam ser compreendidas instantaneamente por públicos letrados e iletrados — uma qualidade crucial em uma região onde a tradição oral frequentemente suplantava a cultura escrita.
A técnica da xilogravura em si é enganosamente simples, mas infinitamente complexa. Usando ferramentas manuais para esculpir em blocos de madeira, artistas como Dila devem pensar ao contrário, visualizando como suas linhas esculpidas se traduzirão quando pressionadas no papel. Cada traço deve ser deliberado, cada detalhe intencional. Não há espaço para hesitação ou correção — o bloco de madeira se torna um registro permanente da visão e habilidade do artista.
O estabelecimento de Dila em Caruaru não foi por acaso. A cidade situa-se no coração da região do Agreste de Pernambuco, que permanece um centro crucial para a criação e disseminação de artes visuais enraizadas na tradição da xilogravura. Ao lado de contemporâneos como Mestre
Seu título auto-proclamado como "marechal do cordel do cangaço" (marechal do cordel do cangaço) não era mera bravata—

Verificado via Claude Vision. Uso educacional.
Mas os personagens diabólicos de Dila eram igualmente importantes para sua identidade artística. Estes não eram os demônios dos contos de moralidade cristã, mas sim as figuras de trapaceiros do folclore brasileiro — personagens que incorporavam o espírito sertanejo de desenvoltura e rebelião contra a autoridade. Através de suas xilogravuras, essas figuras se tornaram metáforas visuais para a complexa relação entre bem e mal, autoridade e resistência, que define grande parte da cultura do Nordeste brasileiro.
O reconhecimento de Dila como "Patrimônio Vivo" pelo estado de Pernambuco reconheceu algo que as comunidades locais sabiam há décadas: seu trabalho representava mais do que uma conquista artística individual. Ele incorporava a memória coletiva e a identidade cultural de uma região inteira. Suas xilogravuras serviam como arquivos visuais, preservando histórias, valores e visões de mundo que de outra forma poderiam ser perdidos para a modernização e urbanização.
Quando Dila faleceu de pneumonia em dezembro de 2019, a perda reverberou por toda a comunidade cultural do Brasil. Sua morte marcou o fim de uma era, mas também destacou a necessidade urgente de preservar e transmitir essas artes tradicionais para as novas gerações. As relações sociais de um povo, como observou o teórico cultural Néstor García Canclini, são diretamente refletidas em suas manifestações culturais populares. O trabalho de Dila serve como testemunho desse princípio — sua arte era inseparável do tecido social do Nordeste do Brasil.
Numa era de mídia digital e conectividade global, o legado de Mestre Dila nos lembra do valor insubstituível da arte feita à mão enraizada na tradição local. Suas xilogravuras não eram apenas ilustrações—eram atos de preservação cultural, construção de comunidade e inovação artística, tudo em um só. Elas provaram que técnicas tradicionais poderiam permanecer vitais e relevantes, falando a públicos contemporâneos enquanto honravam a sabedoria ancestral.
Hoje, enquanto o Brasil lida com questões de identidade cultural e memória histórica, artistas como Dila fornecem uma orientação crucial. Seu trabalho demonstra que a expressão cultural autêntica não exige o abandono da tradição pela modernidade, mas sim encontrar maneiras de fazer a tradição dialogar com as preocupações modernas. Em cada linha entalhada na madeira, em cada história trazida à vida visual, Mestre Dila nos mostrou que o passado e o presente podem coexistir, criando algo inteiramente novo enquanto honra o que veio antes.
O mestre se foi, mas suas histórias continuam vivas—esculpidas em madeira, impressas em papel e gravadas na memória cultural do Nordeste do Brasil.
Fontes:
(1) educapes.capes.gov.br - https://educapes.capes.gov.br/bitstream/capes/742079/2/A%20Arte%20da%20Xilogravura%20(1).pdf
(2) cultura.pe.gov.br - https://www.cultura.pe.gov.br/pagina/patrimonio-cultural/imaterial/patrimonios-vivos/dila/
(3) g1.globo.com - https://g1.globo.com/pe/caruaru-regiao/noticia/2019/12/19/cordelista-e-xilografo-mestre-dila-morre-aos-82-anos-em-caruaru.ghtml
Imagem de capa: Verificado via Claude Vision. Uso educacional.
Este artigo faz parte do Arquivo CASCA, documentando artistas visuais do Nordeste do Brasil. História sobre Dila.