Aurelino dos Santos e a Cidade como Sistema de Signos
Origins
Aurelino dos Santos, nascido em Salvador em 1942, pertence a uma corrente vital da arte brasileira em que a invenção autodidata se torna uma forma rigorosa de pensar o lugar. A fonte biográfica fornecida para este projeto o identifica como um artista visual baiano, autodidata, ex-cobrador de ônibus e pintor cuja trajetória artística foi incentivada pelo contato com o escultor Agnaldo Santos e, indiretamente, pelo ambiente cultural moldado por Lina Bo Bardi na Bahia. Esse contexto importa porque as pinturas de Aurelino não se comportam como simples vistas de Salvador. Eles transformam a cidade em um alfabeto de fachadas, pontes, estradas, morros, água, números, fragmentos impressos e sinais geométricos. O seu trabalho lê a arquitectura como memória e a vida quotidiana como estrutura visual, unindo a observação popular a um sentido de design surpreendentemente construtivo. See also J. Cunha e a imaginação gráfica da Bahia.
O trabalho de 2008 aqui selecionado é um exemplo notável dessa gramática urbana. Uma ponte atravessa o campo superior enquanto a metade inferior se torna uma construção densa de torres, escadas, janelas, módulos coloridos e formas semelhantes a máquinas. A água azul e as colinas verdes permanecem visíveis por trás da arquitetura, mas a pintura recusa a calma do cartão postal. Salvador é reorganizado em um mecanismo vibrante. Rosa, amarelo, vermelho, azul, preto e verde se comportam quase como sinais de trânsito, peças de jogo e marcadores sagrados ao mesmo tempo. O resultado é ao mesmo tempo lúdico e disciplinado: um sistema artesanal no qual infraestrutura, paisagem e imaginação estão interligadas em uma composição inquieta. É menos uma paisagem urbana do que um mapa mental, construído a partir do movimento, do trabalho, da memória e do ritmo constante de travessia pela cidade. See also Cordel não cabe em gavetas: Marina Nabuco sobre o arquivo vivo do Instituto Brincante.

Visual language
As duas obras da cidade azul-verde expandem essa linguagem em diferentes direções. Organizamos fachadas, montanhas, ruas e água em camadas horizontais, como se a cidade tivesse sido comprimida em um mapa, um friso e uma memória ao mesmo tempo. A outra, mais escura e mineral, transforma a paisagem num campo texturizado de azuis, cinzas, verdes, dourados, riscos e caminhos pontilhados. Aqui a cidade não é mais apenas arquitetônica. Torna-se geológico, atmosférico, quase noturno. Colinas, rios, rotas e sinais permanecem presentes, mas a superfície insiste no próprio ato de pintar: raspar, marcar, sobrepor e retornar à imagem até que o lugar pareça reconhecível e inventado. Esta tensão entre legibilidade e invenção é central para a sua força; Aurelino deixa a Bahia aparecer pela estrutura, mas nunca a reduz à ilustração.

A quarta obra, datada de 2011, introduz o impresso na mesma sintaxe urbana. Recortes de jornais, preços de supermercados, anúncios, números e fragmentos de linguagem pública são inseridos em campos coloridos de contornos rígidos. É uma imagem especialmente reveladora porque mostra o interesse de Aurelino pela cidade como sistema de informação visual e não apenas como conjunto de edifícios. O comércio, a mídia, o consumo e a leitura cotidiana passam a fazer parte da estrutura pictórica, transportando para o estúdio a pressão comum da vida pública. Para CASCA, Aurelino dos Santos importa porque suas pinturas transformam os signos cotidianos da Bahia em uma forma original de abstração urbana. A arquitetura torna-se padrão, a paisagem torna-se código e o ruído da rua torna-se uma imagem brilhante, frágil e profundamente pessoal da vida coletiva. Suas pinturas insistem que a experiência local pode gerar um sistema visual próprio, sofisticado justamente por permanecer próximo à rua.
