Carolina Noêmia e a Linha do Carnaval do Recife
Origins
A pintura de Carolina Noêmia começa em Mustardinha, bairro recifense onde nasceu e cresceu, e onde a cultura popular aparece menos como tema do que como gramática cotidiana. Formada primeiro em design, entrou na pintura com a rapidez e a franqueza de quem já está atento aos sinais, ao ritmo, ao gesto e à imagem pública. O perfil da artista Nordestesse descreve uma virada decisiva em 2019, após um acidente enquanto dançava frevo que a deixou em período de recuperação. Nessa época, o desenho e a pintura tornaram-se uma forma de manter vivo o movimento através da mão. O resultado é uma prática em que o carnaval, a memória do bairro e a invenção gráfica se encontram sem se tornarem nostálgicos. Suas imagens parecem próximas da parede, da rua, da festa e do pequeno arquivo doméstico ao mesmo tempo. See also Bozó Bacamarte e a fantástica anatomia da rua.
Os trabalhos aqui reunidos mostram como Noêmia constrói uma imagem a partir de marcas deliberadamente cruas. Suas figuras muitas vezes parecem ter sido desenhadas de uma só vez: contornos pretos, cores rombas, corpos irregulares, palavras escritas à mão, bandeiras, velas, telhados, pássaros, animais e pequenos detalhes cerimoniais. Na composição do Frevo, duas figuras ficam abaixo de formas aladas e uma palavra vermelha que se comporta como som. A imagem não é polida até chegar ao acabamento acadêmico; mantém a vibração do desenho de rua, da pintura de letreiros folclóricos, da marcação infantil e da notação urgente de uma festa vista de dentro. Essa aspereza não é falta de controle. É a temperatura escolhida do trabalho. See also Cordel não cabe em gavetas: Marina Nabuco sobre o arquivo vivo do Instituto Brincante.

Visual language
A recorrente Catita de Noêmia, figura ligada ao Maracatu Rural e ao imaginário popular pernambucano, confere às pinturas uma carga teatral. Em uma das imagens, o personagem aparece com asas, velas, cachorro, telhado de telhas e bandeirolas contra o céu azul, como se a cena fosse ao mesmo tempo procissão e sonho. Em outra, uma figura alada fica sob pequenas luzes, transformando a tela em um palco para rituais, humor e aparições. A cena de São João, com sua barraca, fogueira, santo e bandeiras de festa, caminha na mesma direção: a memória não é reproduzida como ilustração, mas comprimida em signos que parecem rápidos, afetuosos e um pouco instáveis. Mesmo quando as composições são esparsas, elas mantêm a pressão do som, da dança e da celebração coletiva.

Para a CASCA, Carolina Noêmia importa porque traz a memória gráfica do Recife para um registro contemporâneo e intimista. Seu trabalho carrega ecos de xilogravura, arte de rua, faixas de carnaval, tipografia artesanal, imagem votiva e festa de bairro, mas se recusa a congelar essas referências como folclore. A pintura amarela, com seus fragmentos marrons dispersos, figuras, formas animais e fundo brilhante, deixa clara essa recusa: a cultura aparece como peças em movimento, como corpos, máscaras, mãos e resíduos ainda encontrando seu arranjo. As pinturas de Noêmia mantêm vivas as formas populares recifenses, deixando-as ruidosas, ternas, inacabadas e insistentemente presentes. Nesse sentido, o seu trabalho não trata apenas da cultura popular; é uma continuação de sua inteligência improvisada.

