Madalena Santos Reinbolt untitled tapestry photographed as an isolated textile work on a white studio background.
Imagem de abertura de “Madalena Santos Reinbolt: Figuras Retidas Entre Memória e Forma”.

Madalena Santos Reinbolt: Figuras Retidas Entre Memória e Forma

Origins

Madalena Santos Reinbolt, nascida em Vitória da Conquista, Bahia, em 14 de setembro de 1919, emergiu do coração agrário do Nordeste brasileiro, uma região cujas paisagens, tradições e cultura material moldariam profundamente sua visão artística. Seus pais eram agricultores de subsistência, cultivando culturas essenciais como algodão, milho, arroz e feijão, e criando gado, porcos, galinhas e cavalos. Essa conexão íntima com a terra e seus ritmos sazonais formou a base de seu léxico visual. Sua mãe, Ana Maria de Souza Pereira, era ela própria uma artesã habilidosa, fiando algodão, criando cerâmica, tecendo rendas intrincadas e preparando manteiga, imergindo Madalena desde cedo em uma vibrante cultura material vernácula. Apesar desse rico ambiente doméstico, Reinbolt não recebeu educação formal, nunca aprendendo a ler ou escrever além de assinar seu próprio nome – um detalhe que ressalta sua classificação como artista autodidata, ou "naïf", mas que também sugere um tipo diferente de letramento, enraizado na observação e na habilidade manual. See also Leonilson: As Confissões Silenciosas Bordadas no Tecido.

O estilo artístico distinto de Reinbolt evoluiu organicamente de uma propensão infantil para a expressão criativa, manifestando-se inicialmente na pintura de jornais descartados e na montagem de colagens a partir de elementos naturais como folhas e penas. Suas primeiras incursões na arte têxtil incluíram o bordado de panos de prato com desenhos fornecidos por seus empregadores em Salvador, uma prática que sutilmente prenunciou seu domínio posterior das artes têxteis. Foi um empregador em São Paulo quem primeiro reconheceu seu talento inato, incentivando-a ativamente a seguir uma carreira artística. Suas pinturas mais antigas conhecidas datam do início da década de 1950, um período em que Elizabeth Bishop notou a prática espontânea de Reinbolt de pintar em superfícies não convencionais, como pedras e latas de lixo ao redor da propriedade Samambaia, onde ela estava empregada. Lota de Macedo Soares, reconhecendo esse talento prodigioso, posteriormente forneceu-lhe tintas a óleo, pincéis e papel após descobrir um álbum de desenhos que retratavam as paisagens e marcos icônicos do Rio de Janeiro. De 1950 a 1963, Reinbolt trabalhou principalmente com óleo sobre papel, antes de fazer a transição para a tela, um meio que permitia maior escala e permanência. See also Cícero Dias: Do Solo Pernambucano aos Céus Parisienses.

Tapeçaria de Madalena Santos Reinbolt com formas de campo verde em fundo de estúdio neutro
Tapeçaria sem título em campo verde, sem data

Public collections

Um momento decisivo, embora desafiador, na carreira nascente de Reinbolt ocorreu em 1952, quando ela foi demitida de sua posição na Samambaia devido ao tempo extenso que dedicava à sua arte – uma decisão que Elizabeth Bishop descreveu famosamente como uma "escolha entre arte e paz". Apesar desse revés significativo e de sua contínua dependência do trabalho doméstico para seu sustento, Reinbolt perseverou, encontrando um mercado para suas peças entre amigos de Lota de Macedo Soares. Entre suas notáveis pinturas a óleo desse período está Noite na fazenda (1960), uma obra que encapsula poderosamente sua imagética rural evocativa e profunda conexão com o interior baiano. Sua produção artística, abrangendo não apenas óleo sobre tela e eucatex, mas também tapeçarias intrincadas e até pinturas em palha, explorou consistentemente temas da memória de infância, os ritmos da vida no interior baiano e a presença duradoura da cultura material vernácula. O profundo impacto cultural de sua obra na cena do design vernáculo foi postumamente sublinhado por sua inclusão na prestigiada Bienal de Veneza em 1978, uma validação internacional de sua visão única e um testemunho do apelo universal de suas narrativas profundamente pessoais.

Tapeçaria geométrica de Madalena Santos Reinbolt em um fundo de estúdio branco
Tapeçaria geométrica sem título, sem data

Madalena Santos Reinbolt faleceu em Petrópolis em 1977, deixando para trás um legado poderoso que continua a ressoar na história da arte brasileira. Apesar de nunca ter alcançado independência financeira unicamente através de sua arte, seu compromisso inabalável com sua prática criativa resultou em um corpo substancial de trabalho que transcendeu as fronteiras de suas origens autodidatas. Sua classificação como artista "naïf" ou "primitiva", embora descreva factualmente sua falta de formação formal, muitas vezes esconde a técnica sofisticada e a profunda profundidade emocional evidentes tanto em suas pinturas a óleo gestuais quanto em suas "pinturas de lã" intrincadamente tecidas. Sua presença duradoura em importantes instituições brasileiras e sua exposição internacional póstuma na Bienal de Veneza solidificam seu status como uma figura central, cujo trabalho oferece uma janela inestimável para a textura da vida rural brasileira e o espírito indomável de artistas autodidatas. A síntese única de Reinbolt de artesanato tradicional, memória pessoal e forma expressiva continua a influenciar e inspirar, afirmando o papel vital da arte popular e da criação de imagens baseada em têxteis na narrativa mais ampla da arte moderna e contemporânea.

Tapeçaria rural de Madalena Santos Reinbolt em um fundo de estúdio branco
Tapeçaria rural sem título

Victor Yves é um designer gráfico e diretor de arte brasileiro radicado em Toronto, com atuação em projetos editoriais, branding e cultura visual. Ele é o fundador do CASCA Archive, uma plataforma de pesquisa contínua dedicada à memória gráfica do Nordeste do Brasil. [email protected] Saiba mais