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O Nordeste na SP-Arte Rotas 2026: uma zona de suspensão

Na SP-Arte Rotas 2026, Cave coloca a produção artística ligada ao Nordeste do Brasil no centro de um circuito nacional de arte contemporânea. Sua apresentação, Zona de Suspensão, tem curadoria de Lucas Dilacerda, membro da Associação Internacional de Críticos de Arte, e reúne nove artistas: Jane Batista, Bárbara Banida, Rita Lessa, Navegante Tremembé, Gi Monteiro, Sérgi Gurgel, Charles Lessa, Cadeh Juaçaba e Letícia Façanha. Apresentado na ARCA, em São Paulo, de 20 a 24 de agosto, o projeto trata a suspensão como mais do que uma pausa. Torna-se um método curatorial para afrouxar as categorias herdadas do pensamento moderno e colonial, permitindo emergir outras relações entre corpos, materiais, território e memória. See also Silvana Mendes e a Reparação Radiante do Arquivo Colonial.

Os artistas abordam essa proposta através de linguagens distintas, em vez de um estilo regional unificado. A fotografia de Batista reposiciona imagens da feminilidade negra, enquanto as esculturas de Banida imaginam organismos em estados de regeneração contínua. Lessa transita entre a pintura e a escultura para montar mundos híbridos; Tremembé utiliza pigmentos naturais ancestrais indígenas para registrar espécies ameaçadas; e Monteiro traduz os ciclos da natureza em composições abstratas. Gurgel devolve memória e afeto aos objetos do cotidiano, Charles Lessa reinventa o sertão através de narrativas surreais e anárquicas, Juaçaba testa a estabilidade dos símbolos nacionais e Façanha transforma paisagens ameaçadas em atmosferas de resistência. Através destas práticas, as fronteiras estabelecidas – sujeito e objecto, natureza e cultura, passado e presente, realidade e imaginação – tornam-se provisórias em vez de fixas. See also Gabriel Archanjo e a Figura como Campo de Resistência.

O Nordeste na SP, Arte Rotas 2026 - Navegante Tremembé, 2026
SP-Arte Rotas 2026 - Navegante Tremembé, obra selecionada, 2026, 120 x 80 cm

As imagens de imprensa fornecidas para a apresentação tornam esta gama especialmente tangível. Nas pinturas de Navegante Tremembé de 2026, pássaros, árvores, morros e faixas fluidas de terra são representados com um ritmo intencionalmente direto. O uso de pigmento natural não é simplesmente uma escolha formal: ele conecta a produção de imagens ao conhecimento indígena e aos ambientes de vida que as obras procuram registrar. As composições de Rita Lessa, por outro lado, pressionam corpos e massas abstratas uns contra os outros até que as figuras pareçam se transformar em paisagem, vaso ou animal. Seus contornos ásperos e paleta terrosa mantêm a pintura próxima da objetividade. Charles Lessa constrói outro tipo de território instável. Casas, piscinas, escadas, formas industriais e figuras misteriosas ocupam espaços cuidadosamente organizados que parecem ao mesmo tempo arquitetônicos e oníricos, traduzindo o sertão mais como um palco especulativo do que como uma visão documental.

O Nordeste na SP, Tremembé, 2026
SP-Arte Rotas 2026 – Rita Lessa, obra híbrida selecionada

Zona de Suspensão também esclarece a posição curatorial mais ampla do Cave. A galeria descreve seu programa como baseado na atenção de longo prazo à pesquisa individual, relações estreitas com artistas e projetos que excedem a lógica de uma única exposição. Trazer essa constelação para a SP-Arte Rotas amplia a circulação dessas práticas para além do Nordeste sem pedir que abram mão de suas diferenças. O Nordeste aparece aqui não como uma identidade fixa ou um tema decorativo, mas como um campo de investigação contemporânea rigorosa moldado por múltiplos territórios, histórias e formas de conhecimento. Nesse sentido, o gesto mais forte da apresentação não é simplesmente a visibilidade. É a insistência de que a experimentação, a invenção formal, a atenção ecológica e a revisão das narrativas coloniais já são centrais para a forma como a arte contemporânea brasileira entende o seu presente.

O Nordeste na SP, Arte Rotas 2026 - Rita Lessa, 2026
SP-Arte Rotas 2026 - Charles Lessa, acrílico sobre tela, 2026, 90 x 80 cm
O Nordeste na SP, Arte Rotas amplia a circulação dessas práticas para além do Nordeste se, 2026
SP-Arte Rotas 2026 - Navegante Tremembé, toá sobre tela, 2026
O Nordeste na SP, Arte Rotas 2026 - Charles Lessa, 2026
SP-Arte Rotas 2026 – Rita Lessa, obra selecionada com figuras duplas
Victor Yves profile photo

Victor Yves é um designer gráfico e diretor de arte brasileiro radicado em Toronto, com atuação em projetos editoriais, branding e cultura visual. Ele é o fundador do CASCA Archive, uma plataforma de pesquisa contínua dedicada à memória gráfica do Nordeste do Brasil.