Fluxo Marginal artwork: faceless worker with paint roller, hat, and blue field by CASCA Archive artist, approved editorial image
Imagem de abertura de “Fluxo Marginal e o Margem Ancestral da Imagem”.

Fluxo Marginal e o Margem Ancestral da Imagem

Origins

Fluxo Marginal trabalha no Cariri cearense como artista multimídia autodidata para quem a pintura é uma corrente dentro de um campo mais amplo de imagem, som, palavra e gesto político. Nascido no Crato em 1994, o artista aborda a tradição nordestina através de uma perspectiva decolonial, tratando os símbolos herdados não como folclore fixo, mas como formas vivas que podem ser amostradas, deslocadas e reativadas. A colagem é central neste método mesmo quando o trabalho final é uma pintura: diferentes tempos, corpos, registos visuais e memórias culturais encontram-se sem serem forçados a uma unidade contínua. O resultado é uma linguagem da margem e da encruzilhada, construída através da improvisação e da insurgência. A Fluxo Marginal não retrata o Nordeste como uma identidade estável oferecida para consumo externo. A obra questiona quem foi autorizado a narrar a região, cujo conhecimento foi suprimido e como uma imagem pode carregar a memória sem entregá-la à ordem colonial. See also Cordel não cabe em gavetas: Marina Nabuco sobre o arquivo vivo do Instituto Brincante.

As quatro obras distintas selecionadas para este rascunho revelam essa estratégia por meio de figuras cujos rostos são ocultados, removidos ou recompostos. Em uma pintura, um trabalhador rural segura um rolo de pintura sobre um campo azul brilhante; a ferramenta atravessa a face em branco como se o próprio trabalho estivesse repintando os termos da visibilidade. Em outro, um cavaleiro coroado viaja nas costas de um grande felino dourado sob um sol enfático. Esta é "Os descendentes comigo" (2023), uma pintura acrílica inspirada em saberes originais das margens do Rio Jaguaribe. Seu movimento celebra a proteção ancestral: o cavaleiro não avança sozinho, mas por uma paisagem habitada por presenças, transmissão e força coletiva. Duas colagens menores trazem os músicos para uma companhia igualmente instável, colocando figuras com violões ao lado de cores planas, silhuetas alteradas, estrelas e onças. Em toda a seleção, o retrato torna-se menos um registro de semelhança individual do que um ponto de encontro de memória popular, poder animal, trabalho, música e invenção. See also Gabriel Archanjo e a Figura como Campo de Resistência.

Fluxo Marginal e o Margem Ancestral da Imagem, photograph
Obra Fluxo Marginal: Os descendentes vêm comigo, 2023, acrílico sobre tela, 50 x 90 cm

Public collections

A Fluxo Marginal descreveu a identidade por trás do nome como algo maior que uma única pessoa: um sentimento coletivo expresso por meio de imagens e discussões. Essa proposição ajuda a explicar por que o anonimato e a substituição são tão recorrentes. Um rosto desaparecido não é simplesmente um apagamento; pode recusar a exigência de que toda imagem política seja reduzida a um tema identificável. A onça pode se tornar companheira, testemunha ou veículo. Uma fotografia familiar pode ser cortada da certeza documental e devolvida como uma proposta carregada e inacabada. Relatos anteriores do artista enfatizam uma crítica social ácida e a ocupação tanto das ruas quanto das plataformas digitais. Descrições mais recentes chamam o Fluxo Marginal de amostra de tudo, transitando entre trilha sonora, obra audiovisual, performance, instalação e ação política. Em cada meio, a recombinação torna-se uma forma de interromper as histórias que o poder apresenta como naturais.

Fluxo Marginal artwork: seated guitarist with altered pink silhouette by CASCA Archive artist, approved editorial image
Arte Fluxo Marginal: guitarrista sentado com silhueta rosa alterada

A obra tem circulado por importantes conversas sobre arte contemporânea no Ceará. A Fluxo Marginal participou da “Vórtex”, exposição de 2024 na OMA Galeria que reuniu artistas de todo o estado em torno de magia, corpo, ancestralidade, espiritualidade, território e natureza. A publicação “Bonito pra chover”, de 2025, vinculada à Pinacoteca do Ceará, registra Fluxo Marginal como artista nascido no Crato e inclui “Por terra, água e comunicação” (2020), feito com tinta acrílica e colagem digital, no acervo do museu. Estes contextos esclarecem porque é que a prática é importante para a CASCA: expande a pintura sem a abandonar, junta a memória regional à circulação contemporânea e trata a decolonialidade como uma operação visual e não como um slogan. Fluxo Marginal trabalha no limite onde os arquivos se tornam amostras, os ancestrais se tornam movimento e a marginalidade se torna não uma posição atribuída, mas um método para produzir outros percursos através da imagem.

Fluxo Marginal artwork: older guitarist with jaguars and blue star by CASCA Archive artist, approved editorial image
Arte do Fluxo Marginal: guitarrista mais velho com onças e estrela azul

Victor Yves é um designer gráfico e diretor de arte brasileiro radicado em Toronto, com atuação em projetos editoriais, branding e cultura visual. Ele é o fundador do CASCA Archive, uma plataforma de pesquisa contínua dedicada à memória gráfica do Nordeste do Brasil. [email protected] Saiba mais