Isabela Stampanoni e a Cartografia do Ritmo
Origins
O trabalho de Isabela Stampanoni começa com uma questão de ritmo, mas ritmo aqui não é só musical. Nascida em Recife em 1975, é artista visual formada em Artes Visuais pela Universidade Federal de Pernambuco e em cinema pela Civica Scuola di Cinema Luchino Visconti, em Milão. Amparo 60 descreve uma prática que transita pela geografia, notícias, literatura, música, anotações diárias, pesquisas científicas e uma busca pela memória perdida em meio aos escombros da contemporaneidade. Essa combinação confere às suas imagens uma carga particular: parecem mapas, mas também corpos; como diagramas, mas também como fragmentos de clima, música e sensação política. See also Clara Moreira e o Corpo Escrito à Mão.
O primeiro trabalho selecionado explicita essa tensão. A América do Sul aparece como um corpo verde cercado por linhas azuis, brancas e vermelhas, enquanto a palavra ritmo aparece em vários idiomas e grafias instáveis: ritmo, rythme, ritmo, ritmus, rytmus. O continente torna-se um órgão vibrante e não um contorno fixo, atravessado por veias, correntes, fronteiras e pulsações. Stampanoni não está ilustrando um mapa, mas sim perguntando como a própria terra pode ser ouvida. A geografia é tratada como um sistema vivo, onde a língua, a biologia, a fractura colonial e a força ambiental se movem através da mesma superfície. See also Cordel não cabe em gavetas: Marina Nabuco sobre o arquivo vivo do Instituto Brincante.

Public collections
Os demais trabalhos aprofundam esse movimento entre paisagem e corpo. Na pintura da figura agachada, a cor se comporta como uma erupção: verdes, vermelhos, azuis e laranjas se abrem na tela como se forças tectônicas, vegetais e humanas estivessem em colapso umas nas outras. A figura não está separada da matéria circundante; parece gerado por ele, preso num campo de linhas que podem ser rios, nervos, ondas sonoras ou rotas de fuga. O trabalho horizontal de bandas em camadas avança em direção a um andamento diferente. Seus estratos pretos, amarelos, vermelhos e rosa evocam montanhas, lava, horizonte e sedimentos, enquanto uma pequena forma vermelha acima da cena parece um sinal pairando sobre o tempo geológico.

Para CASCA, o trabalho de Stampanoni é importante porque une uma prática visual recifense a um vocabulário contemporâneo mais amplo de percepção ecológica, leitura política e pesquisa sensorial. Amparo 60 observa que seu trabalho vai da pintura à instalação, expandindo o ritmo através dos ciclos biológicos, do ritmo da terra, das placas tectônicas e dos vulcões, das marés e da música. Participou de exposições no Brasil, Alemanha, Itália e Portugal, incluindo Erupcoes no Atelierhof Kreuzberg em Berlim, na II Bienal do Barro em Caruaru e A Nordeste no Sesc 24 de Maio em São Paulo, e também atua como diretora de arte, editora audiovisual e pesquisadora sonora através do Disk Misterio. As três obras aqui reunidas revelam um artista que trata a imagem como um dispositivo de escuta: um lugar onde terra, corpo, ciência, memória e som entram numa mesma composição inquieta, fazendo da geografia uma pulsação íntima.