Clara Moreira, selected work (2) by CASCA Archive artist, approved editorial image
Imagem de abertura de “Clara Moreira e o Corpo Escrito à Mão”.

Clara Moreira e o Corpo Escrito à Mão

Origins

O trabalho de Clara Moreira começa pelo desenho, mas não se limita ao desenho como categoria restrita. Nascida em Recife em 1984, e ainda morando e trabalhando na cidade, desenvolveu uma prática em que o traço artesanal se transforma em escrita poética, artesanato corporal e forma de performance realizada no papel. Amparo 60 descreve sua pesquisa como fundamentada no desenho à mão, explorada como escrita poética, experimento performativo e "artesania do corpo" - um ofício do corpo. Essa frase é útil porque suas imagens não tratam o corpo como um objeto estável a ser ilustrado. Eles o tratam como um lugar de pressão, memória, transformação e olhares repetidos. See also Cordel não cabe em gavetas: Marina Nabuco sobre o arquivo vivo do Instituto Brincante.

Sua formação também importa. A formação artística de Moreira começou ainda na infância, no contato com uma família de artistas populares da periferia do Recife, onde aprendeu desenho, pintura e poesia. As obras aqui reunidas carregam aquela intimidade inicial com a prática manual: nada parece mecanicamente polido, mas tudo é intensamente preciso. No desenho vermelho claro de corpos sobrepostos, a figura aparece como um pulso coletivo, uma sequência de formas em repouso, curvadas e à deriva que parecem compartilhar uma respiração. As imagens vermelhas e azuis do corpo do pássaro movem-se em outra direção, unindo anatomia e signo animal até que o corpo se torne quase mítico: uma figura presa entre a vulnerabilidade humana, o instinto aviário e a força cromática. See also RINA: Rinaldo Silva e a Força da Linha.

Clara Moreira, selected work by CASCA Archive artist, approved editorial image
Clara Moreira, obra selecionada

Public collections

O desenho de Moreira é especialmente cativante porque contém ao mesmo tempo delicadeza e perturbação. O torso de grafite com forma de ovo próximo à garganta é silencioso, quase clínico, mas sua tensão é física e simbólica: voz, respiração, nascimento, obstrução e pressão interior parecem convergir para o pescoço. O retrato emparelhado, com dupla face frontal e traços de fluidez, chama a atenção do artista para a identidade, a presença cindida e as pequenas traições públicas do corpo. Através destas obras, a linha nunca é apenas contorno. Comporta-se como um registro de sensações, acompanhando a pele, os músculos, os cabelos, as dobras e o silêncio com uma paciência que faz do desenho uma forma de atenção.

Clara Moreira e o Corpo Escrito à Mão, photograph
Clara Moreira, obra selecionada (3)

Para a CASCA, Clara Moreira pertence a uma linhagem recifense contemporânea em que a formação popular, a linguagem poética e o desenho experimental não são territórios separados. Seu trabalho integrou coleções como Pinacoteca de São Paulo, Museu da Língua Portuguesa, Instituto Moreira Salles, Museu Paranaense, Caixa Cultural, Banco do Nordeste e SESC Pernambuco; em 2022 recebeu o 8º Prêmio Tomie Ohtake de Artes e fez residência no Pivo Arte e Pesquisa, sendo indicada ao Prêmio PIPA em 2022 e 2024. Esses reconhecimentos importam, mas a força do trabalho é mais íntima: Moreira devolve ao corpo a estranheza e deixa o traço artesanal se tornar uma forma de pensar o que os corpos lembram antes que as palavras cheguem. O resultado é intimista, regional e nitidamente contemporâneo.

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Clara Moreira, obra selecionada (4)
Clara Moreira e o Corpo Escrito à Mão, photograph
Clara Moreira, obra selecionada (5)

Victor Yves é um designer gráfico e diretor de arte brasileiro radicado em Toronto, com atuação em projetos editoriais, branding e cultura visual. Ele é o fundador do CASCA Archive, uma plataforma de pesquisa contínua dedicada à memória gráfica do Nordeste do Brasil. [email protected] Saiba mais