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Imagem de abertura de “Jorge Souza e o Peso do Olhar”.

Jorge Souza e o Peso do Olhar

Jorge Souza, artista pernambucano de Gravatá, iniciou sua trajetória artística em 2018 após formação em arquitetura. Esse pano de fundo permanece perceptível na forma como ele constrói uma imagem: as figuras ocupam espaços cuidadosamente medidos, as superfícies funcionam como paredes ou palcos e cada objeto parece posicionado dentro de um plano emocional mais amplo. Trabalhando principalmente com pintura e escultura, Souza usa óleo sobre tela, cerâmica, porcelana e resina para investigar o corpo, o desejo, a memória, a beleza e as pressões que a sociedade exerce sobre a experiência individual. A sua carreira relativamente recente revela já uma linguagem coerente – figurativa, teatral e atenta à incómoda distância entre o que uma pessoa mostra e o que permanece oculto. See also Silvana Mendes e a Reparação Radiante do Arquivo Colonial.

As quatro obras aqui selecionadas encenam essa tensão através de corpos e objetos colocados contra imagens de azulejos azuis e brancos. Num deles, uma figura desaparece sob um traje denso e multicolorido cuja superfície elaborada compete com as cenas históricas por trás dele. Em outro, um homem sentado examina sua mão enquanto uma máscara repousa entre seus pés, transformando a fantasia em algo temporariamente descartado, mas que nunca escapou totalmente. Uma terceira figura levanta um pequeno objeto em direção à boca aberta enquanto querubins e fragmentos de iconografia herdada se acumulam atrás dela. A quarta traz um rosto semelhante a uma máscara em um arranjo de placas, vasos, animais e fragmentos arquitetônicos. Estas cenas são representadas com imediatismo contemporâneo, mas os seus cenários evocam arte devocional, ornamentos domésticos e memória visual colonial. Os fundos de azulejos não decoram simplesmente as obras; funcionam como arquivos contra os quais se acusam gestos privados e objetos simbólicos. See also Aurelino dos Santos e a Cidade como Sistema de Signos.

Masked figure before a blue-and-white tiled narrative — artwork by Jorge Souza by Jorge Souza
Figura mascarada diante de uma narrativa de azulejos azuis e brancos — obra de Jorge Souza

O trabalho de Souza questiona repetidamente como a identidade é realizada através das superfícies. Roupas, máscaras, porcelana, pele e azulejos pintados podem proteger, embelezar, classificar ou expor. O movimento do artista entre a pintura a óleo e os materiais queimados fortalece esta investigação: a tela pode imitar o brilho e a segmentação da cerâmica, enquanto vasos e pratos transformam formas familiares familiares em portadoras de narrativa psicológica. Na exposição O Traçado, de 2024, a Lança Galeria descreveu a sua arte figurativa como marcada por algo antigo, triste e tenso, lembrando que as histórias muitas vezes se escondem na relação entre figura e fundo. As obras ali apresentadas – incluindo a pintura a óleo Doce Colheita I, o painel cerâmico Doce Colheita II, aquarelas, pratos de porcelana e o vaso cerâmico Fiz de mim o que não sabia – demonstram a fluência com que ele transita entre a imagem e o objeto.

Figure raising a small devotional object against a tiled archive — artwork by Jorge Souza by Jorge Souza
Figura erguendo pequeno objeto devocional sobre arquivo de azulejos — obra de Jorge Souza

A memória na prática de Souza não é, portanto, um registro estável. É um material que pode ser azulejado, esmaltado, fantasiado, repetido e revisado. Suas figuras habitam o atrito entre as narrativas herdadas e o desejo atual, carregando o peso visual da religião, da família, da cultura regional e da expectativa social, sem se tornarem ilustrações de um único tema. Essa complexidade colocou sua obra nos acervos do Museu de Arte Moderna Aloísio Magalhães (MAMAM) e da Usina de Arte, ambos em Pernambuco. A partir de Gravatá, Souza constrói uma obra em que a beleza nunca chega sem ambiguidade: o decorativo torna-se psicológico, o íntimo torna-se público e o próprio olhar torna-se uma negociação entre reconhecimento e disfarce.

Mask-like face among plates, vessels, and blue-and-white imagery — artwork by Jorge Souza by Jorge Souza
Rosto semelhante a uma máscara entre pratos, vasos e imagens em azul e branco — obra de Jorge Souza
Victor Yves profile photo

Victor Yves é um designer gráfico e diretor de arte brasileiro radicado em Toronto, com atuação em projetos editoriais, branding e cultura visual. Ele é o fundador do CASCA Archive, uma plataforma de pesquisa contínua dedicada à memória gráfica do Nordeste do Brasil.