Painting by Lula Cardoso Ayres with a wrought iron gate, a wall and a veiled figure in green and blue.
Imagem de abertura de “Lula Cardoso Ayres e a linha moderna de Pernambuco”.

Lula Cardoso Ayres e a linha moderna de Pernambuco

Lula Cardoso Ayres, nascido no Recife, Pernambuco, em 1910 e morto na mesma cidade em 1987, fez a pintura moderna responder aos ritmos do Nordeste. Formado inicialmente com Heinrich Moser e depois ligado à Escola Nacional de Belas Artes, passou por Paris, Rio, ilustração de revista e cenografia antes de voltar a Pernambuco. A virada decisiva veio na zona açucareira: depois da crise financeira da família, trabalhou em uma usina, conviveu com trabalhadores rurais e observou de perto jogos, danças, cerâmica, máscaras e cerimônias populares. Em 1946, quando sua individual no Rio chamou atenção, a revista TIME registrou o alcance daquele momento. See also Cordel não cabe em gavetas: Marina Nabuco sobre o arquivo vivo do Instituto Brincante.

Pintura de Lula Cardoso Ayres de mulher segurando algodão junto a algodoeiros estilizados
Lula Cardoso Ayres, cena de algodão reproduzida a partir de imagem enviada pelo editor.

Sua linguagem não tratava o popular como lembrança decorativa nem o modernismo como fórmula importada. Ayres transformou forma popular em estrutura: o volume arredondado dos bonecos de barro, a força gráfica das festas, a frontalidade das imagens devocionais e o desenho de grades, tecidos e ornamentos. Obras como Representação do Bumba-Meu-Boi (1943), Noivado no Copiar (1943), Bolo de Noiva (1943) e Passeio a Cavalo (1943) mostram Pernambuco entrando na tela como volume, cor e coreografia. Em cenas sociais como Cego Violeiro (1947), figuras de carnaval, frevo, maracatu e cortadores de cana mantêm o corpo da região no centro da imagem. See also Calasans Neto: a vibração da Bahia através da tinta.

Pintura vertical de Lula Cardoso Ayres com figura feminina frontal em vermelho, amarelo e preto
Lula Cardoso Ayres, figura reproduzida a partir de imagem enviada pelo editor.
Pintura de Lula Cardoso Ayres com figura de bumba-meu-boi e cavaleiro em cores de carnaval
Lula Cardoso Ayres, cena de festa popular reproduzida a partir de imagem enviada pelo editor.

Ayres também transitou com naturalidade entre pesquisa, arte pública e experimentação. Fotografou a vida rural nas décadas de 1930 e 1940, e parte desse conjunto integra hoje o Museu do Homem do Nordeste. Realizou murais, painéis, ilustrações para autores como Manuel Bandeira e Ascenso Ferreira, além de atuar como professor na Universidade Federal de Pernambuco. Nos anos 1950, aproximou-se da abstração, participou da Bienal de São Paulo e produziu obras como Ex-Votos (1951), Três Ex-Votos (1951), Dançarinas (1952), Pássaro Vermelho (1952) e Rei e Rainha do Maracatu (1959). O Masp viria a abrigar Rainha do Maracatu (1972), já marcada por uma figuração mais sintética.

Pintura de Lula Cardoso Ayres de mulher em vermelho com formas ornamentais amarelas e rosas
Lula Cardoso Ayres, figura feminina reproduzida a partir de imagem enviada pelo editor.
Pintura de Lula Cardoso Ayres de mulher frontal com formas ornamentais ao fundo
Lula Cardoso Ayres, figura com formas ornamentais reproduzida a partir de imagem enviada pelo editor.
Pintura de Lula Cardoso Ayres com rosto velado verde ao lado de portão e muro
Lula Cardoso Ayres, figura velada reproduzida a partir de imagem enviada pelo editor.

As sete imagens reunidas aqui mostram a amplitude desse percurso: o portão como arquitetura da memória, o algodão como desenho, a figura feminina como máscara, o bumba-meu-boi como teatro e a linha ornamental como elo entre pintura e artesanato. Em Jaboatão dos Guararapes, o Instituto Cultural Lula Cardoso Ayres preserva mais de 300 obras, entre pinturas, desenhos, fotografias, ilustrações, peças gráficas e estudos para murais e cenografias. Esse acervo confirma o que as telas já afirmam: Ayres tornou Pernambuco moderno ao levar o conhecimento local a sério e convertê-lo em forma pictórica rigorosa, ampla e reconhecível.

Victor Yves é um designer gráfico e diretor de arte brasileiro radicado em Toronto, com atuação em projetos editoriais, branding e cultura visual. Ele é o fundador do CASCA Archive, uma plataforma de pesquisa contínua dedicada à memória gráfica do Nordeste do Brasil. [email protected] Saiba mais