Miguel dos Santos, untitled painting, 1977 by CASCA Archive artist, approved editorial image
Imagem de abertura de “Miguel dos Santos e o Corpo Mítico Paraibano”.

Miguel dos Santos e o Corpo Mítico Paraibano

Origins

Miguel dos Santos pertence a uma linhagem de artistas brasileiros cuja obra recusa a antiga separação entre modernismo erudito e invenção popular. Nascido em Caruaru, Pernambuco, em 1944, e há muito tempo ligado a João Pessoa, na Paraíba, desenvolveu uma prática que transita pela pintura, cerâmica, escultura, madeira, mármore e confecção de objetos. O perfil artístico de Ocula o situa como uma figura autodidata cuja linguagem visual se inspira na cultura popular nordestina, nas mitologias indígenas, nas referências afro-brasileiras e na atmosfera simbólica que também alimentou o imaginário Armorial. O que importa em sua obra não é a ilustração do folclore, mas a invenção de uma cosmologia pessoal: rostos, animais, santos, máscaras, garras, línguas e corpos ornamentais tornam-se um organismo contínuo. See also Guto Oca e a Lógica Rua da Cor.

As cinco pinturas aqui reunidas, datadas entre 1974 e 1978, mostram essa cosmologia num momento concentrado. Suas figuras têm pescoços alongados, rostos semelhantes a máscaras, olhos fixos, dentes afiados e corpos que parecem parte humanos, parte bestas, parte instrumentos musicais. Em uma pintura de 1977, um perfil grande carrega outra cabeça menor e uma criatura ondulada ao longo do corpo, como se ancestralidade, apetite e memória estivessem ligados à mesma coluna vertebral. Na figura sentada de 1974, o corpo torna-se um recipiente de planos curvos e suportes castanho-avermelhados, com o rosto reduzido a uma máscara calma e vigilante. Estes não são retratos no sentido convencional. São presenças construídas a partir de signos que parecem cerimoniais, animalescos e teatrais ao mesmo tempo. See also Cordel não cabe em gavetas: Marina Nabuco sobre o arquivo vivo do Instituto Brincante.

Miguel dos Santos e o Corpo Mítico Paraibano, photograph
Miguel dos Santos, pintura sem título, 1974

Visual language

A pintura de Miguel é especialmente poderosa porque faz coexistir suavidade e ameaça. As superfícies são lisas, com vermelhos, ocres, marrons, cremes e azuis cuidadosamente modulados, mas as figuras geralmente carregam dentes, chifres, ganchos, lâminas ou extensões semelhantes a serpentes. Uma composição de 1975 transforma toda a imagem num encontro ritual: um perfil humano, uma forma animal com garras, um arco crescente amarelo e um corpo enrolado ocupam o mesmo campo. Outra obra de 1974 oferece um rosto frontal quase devocional, pálido e imóvel, contra um solo quente. A pintura posterior de fundo azul de 1978 empurra a figura para um registro mais icônico, com rosto rosa, vestimenta amarela e apêndices curvos escuros que parecem tanto fantasia quanto criatura.

Miguel dos Santos e o Corpo Mítico Paraibano, photograph
Miguel dos Santos, pintura sem título, 1975

Para a CASCA, Miguel dos Santos é importante porque sua obra dá forma visual ao imaginário híbrido do Nordeste brasileiro sem reduzi-lo a uma anedota regional. Suas figuras carregam algo de teatro popular, ex-voto, imagem de santo, brinquedo esculpido, máscara de carnaval e animal mítico, mas permanecem inconfundivelmente suas. As pinturas anexas mostram como ele transforma o corpo num arquivo de signos: a boca como limiar, o olho como oráculo, o pescoço como coluna, o membro do animal como memória ancestral. Nesse sentido, o seu trabalho não é simplesmente fantástico. É uma gramática séria de transformação, em que a Paraíba se torna um lugar onde a pintura pode conter ritual, humor, medo, beleza e invenção num mesmo corpo estranho.

Miguel dos Santos e o Corpo Mítico Paraibano, photograph
Miguel dos Santos, pintura sem título, 1974 (2)
Miguel dos Santos e o Corpo Mítico Paraibano, photograph
Miguel dos Santos, pintura sem título, 1978

Victor Yves é um designer gráfico e diretor de arte brasileiro radicado em Toronto, com atuação em projetos editoriais, branding e cultura visual. Ele é o fundador do CASCA Archive, uma plataforma de pesquisa contínua dedicada à memória gráfica do Nordeste do Brasil. [email protected] Saiba mais