Diego de Santos e a arquitetura do cotidiano
Origins
Diego de Santos transforma as superfícies comuns de moradias, ruas, praias e construções em vocabulário político. Nascido em 1984 em Caucaia, Ceará, e atuante entre Fortaleza e São Paulo através do contexto de residência da FAAP, formou-se em Artes Visuais pelo Instituto Federal do Ceará em 2010. A FAAP descreve uma prática preocupada com a relação entre sociedade e natureza por meio da expansão urbana mediada pelo mercado fundiário e imobiliário. Nordestesse acrescenta uma camada biográfica essencial: cresceu no Parque Potira, zona rural de Caucaia, na Grande Fortaleza, testemunhando o crescimento não planejado da comunidade e as cenas cotidianas que continuam alimentando seu trabalho. Suas pinturas são cuidadosas, mas não silenciosas. Eles usam a aparente simplicidade da vida cotidiana para revelar quem vive, se move, lembra, constrói e pertence. See also Cordel não cabe em gavetas: Marina Nabuco sobre o arquivo vivo do Instituto Brincante.
As três primeiras obras selecionadas colocam casas, barcos, quiosques e corpos sob campos de linhas rompidas. Essas marcas radiantes parecem fogos de artifício, fiação, mapas de propriedades, rotas ou o ruído visual de uma cidade em expansão rápida demais. Uma lanchonete sob um céu explodindo torna-se mais do que um lugar familiar; torna-se um nó frágil num sistema de trabalho, apetite, sinalização e luz. Uma abertura circular sobre a água e o pôr do sol traz um corpo para o centro da imagem, como se o lazer e a fuga tivessem que passar por uma densa tela de forças sociais. No trabalho de barco, a embarcação e a figura em pé enfrentam um enorme campo de marcas direcionais, transformando o horizonte num mapa de pressão. See also Isabela Stampanoni e a Cartografia do Ritmo.

Public collections
As outras obras passam da paisagem externa para a estrutura doméstica e a memória material. As pinturas em grade, com pequenos interiores vistos através de aberturas, ecoam os materiais de construção, ao mesmo tempo que impedem o acesso total à casa. Nordestesse observa que em sua série Acabamentos, Diego utiliza cerâmicas recolhidas de sobras de construção da casa de sua avó e do bairro ao redor de seu ateliê, pintando memórias como a de um vendedor de cajus que passava de porta em porta. O título carrega um duplo significado: materiais de acabamento, mas também desgaste de culturas e comunidades. Seu uso anterior de banners de ráfia em anúncios de venda e aluguel de imóveis aponta na mesma direção. Estes materiais não são suportes neutros. Eles são evidências.

Para a CASCA, Diego de Santos é importante porque seu trabalho torna legível a transformação urbana sem reduzi-la à documentação. Expôs em projetos individuais como Lost na Regiao no Paço das Artes em São Paulo e Poema 193 na Galeria Fayga Ostrower/FUNARTE em Brasília, e em exposições coletivas como Se Arar na Pinacoteca do Ceará e Casa Carioca no Museu de Arte do Rio. Através destas obras, ele transforma a casa, a praia, o banner de venda, a superfície cerâmica e a grelha pintada em instrumentos de memória e crítica. Sua prática pergunta o que resta de um lugar quando o mercado o nomeia como terreno, lote, propriedade ou empreendimento. A resposta é visual e teimosa: a vida cotidiana continua brilhando pelas frestas.


