Juliana Lapa, selected work (2) by CASCA Archive artist, approved editorial image
Imagem de abertura de “Juliana Lapa e a superfície onde a memória se enraíza”.

Juliana Lapa e a superfície onde a memória se enraíza

Origins

O trabalho de Juliana Lapa transita entre o desenho e a pintura como se a superfície fosse um local de escavação. Nascida em Carpina, Pernambuco, em 1985, ela constrói imagens onde a memória individual, a memória coletiva, o sonho, a política e a vida rural não são separados em categorias nítidas. A Galeria Marco Zero descreve uma prática moldada por grafite, lápis de cor, massa corrida, têmpera de ovo e tinta acrílica, com procedimentos de apagamento, velamento, entalhe e revelação de superfícies em camadas. Essa descrição técnica é importante porque as imagens de Lapa parecem menos pintadas sobre um suporte do que lentamente descobertas a partir dele. Papel e madeira tornam-se lugares onde histórias, corpos, paisagens e símbolos enterrados sobem. See also Clara Moreira e o Corpo Escrito à Mão.

As quatro obras aqui reunidas tornam esse processo visível através de formatos arqueados, texturas riscadas e figuras que parecem presas em rios, raízes, nervos e intempéries. Na composição em tons terrosos com dois corpos reclinados, riachos azuis claros movem-se pela cena como água, leite, memória ou respiração, ligando as figuras a uma forma vegetal e ancestral maior. Na obra vermelha, os corpos aparecem quase esfolados em movimento, seus membros e faixas de tinta atravessando uma paisagem que parece ferida, mítica e viva. As figuras da Lapa raramente ficam fora do mundo que habitam. Eles estão enfiados nele, como se o próprio terreno estivesse pensando através deles. See also Cordel não cabe em gavetas: Marina Nabuco sobre o arquivo vivo do Instituto Brincante.

Juliana Lapa, selected work by CASCA Archive artist, approved editorial image
Juliana Lapa, obra selecionada

Public collections

Seu trabalho também carrega uma densidade narrativa que resiste à simples ilustração. A Galeria Marco Zero observa que Lapa frequentemente examina eventos reais ou imaginários através de uma atenção meditativa aos detalhes, às vezes recorrendo a reminiscências biográficas para vislumbrar as histórias coletivas que cercam a existência e o trabalho das mulheres no campo. Em outros momentos, as imagens se abrem em sonhos e símbolos enigmáticos da natureza. Esse duplo movimento aparece no trabalho ocre quente, onde uma figura reclinada se dissolve em estratos, cursos de água e pequenas figuras distantes, e no trabalho arqueado amarelo, onde uma forma de estrela se torna ao mesmo tempo planta, corpo, abrigo, constelação e aparição. A superfície se comporta como uma parede, um campo e uma câmara de memória.

Juliana Lapa e a superfície onde a memória se enraíza, photograph
Juliana Lapa, obra selecionada (3)

Para CASCA, Lapa é importante porque suas pinturas e desenhos conectam a vida interior da fabulação às histórias da terra, do trabalho e da experiência feminina em Pernambuco. Suas séries incluem Breu, Sorte Saúde e Felicidade, Fabulacao e Outros esquemas do corpo, todas interligadas por procedimentos de cobrir, apagar, incisar e modelar a imagem. Após expedições à Amazônia e contato com comunidades florestais e rurais, ela se voltou mais intensamente para a produção artística, e seus cadernos de expedição continuam servindo como ferramentas para relembrar situações vividas. Seu trabalho está presente em coleções institucionais como Pinacoteca de São Paulo, Banco do Nordeste, REC Cultural e Museu de Belas Artes do Rio de Janeiro. Nas obras selecionadas, a Lapa dá à memória um corpo e à paisagem um sistema nervoso, fazendo de cada imagem um lugar onde a lembrança pessoal e a história coletiva vão mudando de forma.

Juliana Lapa e a superfície onde a memória se enraíza, photograph
Juliana Lapa, obra selecionada (4)

Victor Yves é um designer gráfico e diretor de arte brasileiro radicado em Toronto, com atuação em projetos editoriais, branding e cultura visual. Ele é o fundador do CASCA Archive, uma plataforma de pesquisa contínua dedicada à memória gráfica do Nordeste do Brasil. [email protected] Saiba mais