Sante Scaldaferri: a anatomia da devoção pintada na Bahia
Origins
Sante Scaldaferri pertence à geração que fez com que a arte moderna baiana fosse indissociável do teatro, da devoção popular e da inteligência áspera da pintura. Nascido em Salvador em 1928, formou-se na Escola de Belas Artes da Universidade Federal da Bahia e passou pela pintura, gravura, tapeçaria, cenografia, ensino e escrita, sem tratar essas disciplinas como carreiras distintas. Esse movimento é importante porque suas imagens não se comportam como pinturas educadas de cavalete. Sentem-se encenados, frontais e carregados, como se cada figura tivesse entrado na tela carregando um papel ritual, uma ferida privada e uma memória do sertão traduzida em tinta. See also Cordel não cabe em gavetas: Marina Nabuco sobre o arquivo vivo do Instituto Brincante.
As obras aqui selecionadas mostram porque Scaldaferri é mais forte para CASCA do que o material documental que escapou anteriormente. Em O Tutor e Os Abaixadinhos, o corpo não é registrado a partir da vida, mas reconstruído como uma anatomia pictórica: joelhos inchados, mãos simplificadas, tronco pesado, perna dobrada, olhar atento e campos cor de pele esfregados na superfície. As figuras são deliberadamente estranhas, quase votivas, mas nunca casuais. Suas proporções tornam visível a pressão social e espiritual. Em vez de usar a figura humana como ilustração, Scaldaferri a transforma em estrutura, dando ao Nordeste uma gramática corporal de peso, desequilíbrio, resistência e presença teatral. A pele da pintura é tão importante quanto o corpo que ela descreve: raspada, manchada e trabalhada até que a figura pareça ter saído do mesmo chão que a fere. See also Carybé: Bahia Desenhada como Ritual e Movimento.

Public collections
Sua linguagem carrega também a história das instituições artísticas baianas. Scaldaferri trabalhou próximo ao Museu de Arte Moderna da Bahia, lecionou em programas formativos de arte, auxiliou Lina Bo Bardi e posteriormente escreveu sobre os primórdios da arte moderna no estado. Essa proximidade institucional não reduziu o seu trabalho ao modernismo académico. As pinturas mantêm contato com ex-votos, procissões, teatro popular, imaginário católico e a distorção expressiva da escultura popular. Em Procissão no Monte Santo, um campo vermelho e uma massa de rostos semelhantes a máscaras transformam a peregrinação numa arquitetura comprimida de corpos. A multidão não é o pano de fundo; é o motor da composição, uma pressão vertical que reúne devoção, anonimato e ritual coletivo em uma única imagem.

Vistas em conjunto, essas obras situam Scaldaferri em uma linhagem precisa de artista visual: não observador documental, mas criador de corpos pintados e cenas simbólicas. Suas figuras são diretas o suficiente para parecerem imediatas e estranhas o suficiente para resistir à anedota. As superfícies ásperas, ocres, vermelhos e faces frontais conferem à sua arte uma densidade corporal que se adapta ao interesse de CASCA pela anatomia, sem reduzir a anatomia à descrição médica. As melhores pinturas de Scaldaferri transformam a perna, o rosto, a multidão e a superfície danificada em sinais de um drama regional mais amplo, onde a imaginação popular da Bahia se transforma em pintura moderna através da pressão, da distorção e do nervo. Esse é exatamente o tipo de material que a fila deve privilegiar: trabalho finalizado, autoria clara e imagens que transmitam visualmente o artigo antes da leitura da primeira frase.