Alice Dote e a política íntima do olhar
Origins
Alice Dote torna a intimidade visível sem torná-la simples. Nascido em Fortaleza, Ceará, em 1992, o artista visual e pesquisador trabalha com pintura a óleo, desenho e gravura, desenvolvendo uma linguagem figurativa enraizada na experiência autobiográfica. Seus temas transitam pelo erotismo e pela sexualidade, pela memória e pelo luto, convergindo no que ela descreve como imagens de intimidade. No entanto, a intimidade aqui nunca está isolada do mundo. Dote trata-o como um campo contestado no qual os corpos são observados, desejados, lembrados e tornados públicos. Seu trabalho questiona quem controla o olhar e o que muda quando a pessoa tradicionalmente posicionada como seu objeto se torna autora da imagem. O erotismo torna-se menos um tema do que um procedimento: uma forma de abordar superfícies, fragmentos, gestos, espaços domésticos e a distância instável entre o eu e o outro. See also Cordel não cabe em gavetas: Marina Nabuco sobre o arquivo vivo do Instituto Brincante.
As seis obras selecionadas mostram como essa política do olhar se constrói por meio do enquadramento. Uma figura reclinada sem camisa e um cachorro compartilham um sofá vermelho vivo, enquanto a composição retém a integridade de ambos os corpos. A pia do banheiro se torna um estudo silencioso em cinza, marrom, reflexo e rotina. Duas pinturas verticais aproximam o espectador de torsos, roupas, dobras e pele exposta, transformando o corte em uma forma carregada de atenção. Em outro lugar, uma cabeça de cavalo aparece em densa pintura a óleo sobre um suporte oval de cobre, e uma fruta suspensa se estende em uma delicada estrutura ramificada contra um campo claro. Através destas obras, Dote move-se entre o imediatismo corporal e os objetos silenciosos, sem tratá-los como mundos separados. Uma pia, uma roupa, um animal, uma fruta ou um pedaço de pele podem carregar a pressão da lembrança e do desejo. See also Isabela Leao e a Borda de Porcelana do Sentimento.

Public collections
A pesquisa de Dote sobre a cidade expande esse vocabulário íntimo. Desde 2017, através do coletivo Narrativas Possíveis, trabalha na intersecção entre arte, experiência urbana e cultura visual. Ela possui mestrado em Sociologia pela Universidade Federal do Ceará, onde sua pesquisa analisou o caminhar, a escrita urbana e a produção de imagens no centro de Fortaleza. Essa formação é importante porque as suas pinturas também se comportam como registos de proximidade: percebem como os corpos ocupam salas, como os objetos retêm gestos e como a experiência privada é moldada por estruturas maiores de visibilidade. Sua primeira exposição individual institucional, "o nome disso não é fome", foi apresentada no Banco do Nordeste Cultural Fortaleza de novembro de 2025 a fevereiro de 2026. Sua programação pública ampliou o trabalho por meio de conversas, performances, leituras coletivas, sessões de desenho ao vivo e oficinas, abrindo questões íntimas para o espaço cívico compartilhado.

Em 2026, Dote publicou sua primeira monografia pela Barléu Editora, reunindo cerca de sessenta pinturas, desenhos e gravuras dos últimos anos, além de um ensaio crítico de Paula Plee. A publicação marcou uma importante consolidação de uma prática já moldada pelo movimento entre Fortaleza, São Paulo, Barcelona e Rio de Janeiro, bem como por intercâmbios sustentados com artistas, instituições e grupos de estudos independentes. Para CASCA, Alice Dote é importante porque o seu trabalho recusa a velha oposição entre autobiografia e investigação social. O corpo é pessoal, mas também é político; a memória é privada, mas se forma em quartos, ruas, relações e sistemas de olhar. Suas pinturas sustentam essa contradição com ternura e tensão incomuns. Eles aproximam o espectador e depois tornam a proximidade eticamente difícil, transformando o ato de ver num encontro com o desejo, a vulnerabilidade e os limites do que a imagem de outra pessoa pode revelar.


