Gê Viana e o Arquivo Remontado como Memória Viva
Origins
Gê Viana, nascido em Santa Luzia, Maranhão, em 1986, é um artista visual cujo trabalho trata o arquivo como algo incerto, contestado e ainda disponível para reparação. Radicada em São Luís e formada em Artes Visuais pela Universidade Federal do Maranhão, trabalha com colagem analógica e digital, fotomontagem, pintura, vídeo, som, instalação e intervenções lambe-lambe. A sua prática começa com corpos e imagens que a cultura colonial tentou definir a partir do exterior, e depois devolve esses corpos a um campo de autodomínio, ancestralidade, ritual e prazer. Em vez de usar a história como ilustração distante, Viana corta o seu registo visual. Ela entende imagens antigas como estruturas ativas de poder, e a colagem se torna sua maneira de tornar visível sua anatomia oculta. See also Cordel não cabe em gavetas: Marina Nabuco sobre o arquivo vivo do Instituto Brincante.
Os três trabalhos selecionados mostram como esse método opera através da abundância. Em uma imagem, um baterista negro se move por um chão vermelho tecido, cercado por folhas, palmeiras, pássaros e fragmentos botânicos que parecem surgir como uma segunda procissão ao redor do corpo. A figura não está congelada como evidência etnográfica; ele é rítmico, soberano e alerta, contido numa imagem que deixa o movimento e a paisagem falarem juntos. Noutra colagem, uma mesa de cogumelos brilhantes interrompe uma cena doméstica colonial, enquanto figuras negras, flores tropicais, cristais, água e luz costeira abrem a imagem em vários tempos ao mesmo tempo. Viana não se limita a decorar a imagem de origem. Ela muda sua lógica, substituindo a antiga hierarquia do olhar por uma densa ecologia de relações. See also Anderson Santos e a Instabilidade da Figura.

Visual language
Essa estratégia é especialmente clara no trabalho que se assemelha a uma loja de ervas ou a uma sala de cura. Letras, plantas, cadeiras, corpos, animais, fumaça e fragmentos arquitetônicos se reúnem em um cenário de transmissão de conhecimento. A imagem carrega a memória da classificação colonial, mas Viana recusa-se a deixar as suas figuras presas ao serviço ou ao espetáculo. Lêem, cuidam, trocam, fumam, curam e ocupam o quarto através de gestos que insistem na vida interior. É por isso que sua reelaboração de artistas como Debret é importante: ela confronta a violência das imagens que ajudaram a organizar o imaginário colonial do Brasil, mas o faz inventando cenas onde a presença negra e indígena não é reduzida ao sofrimento. Seu trabalho abre espaço para dignidade, humor, cerimônia e inteligência cotidiana.

Vencedor do Prêmio PIPA 2020, Viana tornou-se uma das vozes contemporâneas mais contundentes do Nordeste brasileiro trabalhando com reconstrução arquivística e cultura visual afro-indígena. Suas colagens são políticas, mas não são declarações planas. São argumentos visuais em camadas sobre como a memória sobrevive através das plantas, dos espaços domésticos, da história oral, da cultura de rua, das narrativas familiares e das formas do Maranhão. Para CASCA, Gê Viana é essencial porque suas imagens transformam o arquivo colonial em uma superfície viva de disputa. Ela mostra que o passado pode ser aberto sem ser repetido e que uma imagem quebrada pode ser remontada em outro tipo de futuro.