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Imagem de abertura de “Beatrice Arraes e as paisagens que a memória deixa para trás”.

Beatrice Arraes e as paisagens que a memória deixa para trás

Nascida em Fortaleza em 1998 e hoje morando e trabalhando em São Paulo, Beatrice Arraes desenvolveu uma prática pictórica atenta à fronteira instável entre o mundo que vemos e o mundo que a memória reconstrói. Estudou Design Gráfico e de Produto na Universidade Federal do Ceará e Belas Artes na Universidade de Salamanca, na Espanha, experiências que aguçaram seu interesse pela forma como as imagens são construídas, circuladas e desgastadas. Trabalhando principalmente com óleo sobre tela ou madeira, Arraes pinta paisagens naturais e urbanas nas quais a observação nunca é simplesmente descritiva. Uma nuvem, uma montra, um campo ou um trecho de costa tornam-se um recipiente de recordação, carregando a clareza parcial e as inevitáveis ​​lacunas de uma experiência retida ao longo do tempo. See also Gabriel Archanjo e a Figura como Campo de Resistência.

Sua linguagem visual é moldada por coisas que parecem resistir à velocidade tecnológica: fachadas pintadas à mão, letras, placas, cartazes, arquitetura de bairro e outras formas de criação de imagens populares. Arraes não cita essas fontes como decoração nostálgica. Ela chama a atenção para sua vulnerabilidade física e para o trabalho que lhes é inerente. Finas camadas de cores suaves são acumuladas e removidas; seções de tinta parecem friccionadas, raspadas ou erodidas; incisões expõem o material abaixo. Esses procedimentos tornam o tempo visível dentro da imagem. O que à primeira vista pode parecer tranquilo ou ingênuo revela uma negociação complexa entre clareza e obscuridade, experiência local e cultura visual global, preservação e desaparecimento. A pintura torna-se menos um meio de consertar o mundo do que uma frágil tentativa de manter contato com o que já está mudando. See also Silvana Mendes e a Reparação Radiante do Arquivo Colonial.

Beatrice Arraes — rain descending from a low cloud into a dark body of water by Beatrice Arraes
Beatrice Arraes - chuva descendo de uma nuvem baixa em um corpo de água escuro

As obras selecionadas transitam por chuvas, campos, vegetação litorânea, formas vulcânicas, construções modestas, fios elétricos e fragmentos de palavras pintadas. Sua paleta favorece o verde musgo, o azul empoeirado, o ocre, o marrom, o cinza e explosões ocasionais de laranja, dando às cenas a intensidade moderada do clima lembrado. A chuva muitas vezes aparece como um corpo vertical contido, quase uma cortina ou arquitetura suspensa entre as nuvens e a terra. Em outros lugares, um cometa laranja cruza o céu acima de campos segmentados, ou um campo de futebol se inclina para longe de uma figura solitária, como se a própria perspectiva tivesse se tornado pouco confiável. As pinturas urbanas são igualmente instáveis: uma placa pintada à mão é cortada na borda da moldura, as linhas de utilidade tornam-se cicatrizes na superfície e as fachadas familiares parecem imediatas e distantes. Em cada caso, formas simplificadas e espaços comprimidos recusam a certeza fotográfica. A paisagem é reconhecível, mas comporta-se como um estado interior.

Beatrice Arraes — urban facade with a suspended form, painted sign fragments, and incised surfaces by Beatrice Arraes
Beatrice Arraes — fachada urbana com forma suspensa, fragmentos de sinalização pintada e superfícies incisas

Arraes apresentou exposições individuais, incluindo Passou uma nuvem em Fortaleza e Jogo de mesa no Sea View em Los Angeles, e seu trabalho apareceu em exposições coletivas em instituições e galerias no Brasil e no exterior, incluindo a Pinacoteca do Ceará, Perrotin em Paris, Société em Berlim, Millan em São Paulo e Almeida & Dale. Seu trabalho também faz parte do acervo do Museu Nacional de Belas Artes do Rio de Janeiro. Esta circulação crescente não deslocou a intimidade dos seus temas. Em vez disso, esclarece o que está em jogo na sua prática: a cultura visual das ruas, cidades e paisagens comuns nunca é apenas um pano de fundo. É um arquivo vivo, vulnerável ao apagamento, mas constantemente renovado pela atenção. Arraes pinta esse arquivo sem pretender preservá-lo intacto. Suas obras permanecem abertas, desgastadas e incertas, mantendo a memória como um processo material e não como uma história acabada.

Beatrice Arraes — dark volcanic form set against a muted green landscape by Beatrice Arraes
Beatrice Arraes — forma vulcânica escura contra uma paisagem verde suave
Beatrice Arraes — earthen landscape beneath a textured cloudburst by Beatrice Arraes
Beatrice Arraes — paisagem de terra sob uma chuva torrencial texturizada
Beatrice Arraes — blue rain falling over a distant line of vegetation by Beatrice Arraes
Beatrice Arraes — chuva azul caindo sobre uma distante linha de vegetação
Beatrice Arraes — neighborhood architecture, electrical wires, and a partially visible hand-painted sign by Beatrice Arraes
Beatrice Arraes — arquitetura do bairro, fios elétricos e uma placa parcialmente visível pintada à mão
Beatrice Arraes — orange comet crossing above fields, rainfall, trees, and distant hills by Beatrice Arraes
Beatrice Arraes — cometa laranja cruzando campos, chuvas, árvores e colinas distantes
Beatrice Arraes — coastal landscape with leaning palms, rocks, and a muted blue sea by Beatrice Arraes
Beatrice Arraes – paisagem costeira com palmeiras inclinadas, pedras e um mar azul suave

Fontes e leituras complementares

Victor Yves profile photo

Victor Yves é um designer gráfico e diretor de arte brasileiro radicado em Toronto, com atuação em projetos editoriais, branding e cultura visual. Ele é o fundador do CASCA Archive, uma plataforma de pesquisa contínua dedicada à memória gráfica do Nordeste do Brasil.