'As nossas imagens' transforma álbum de família em arquivo controverso
Origens
O projeto curatorial As nossas imagens, idealizado por Rodrigo Lopes no Paço das Artes, começa com um objeto aparentemente familiar: o álbum de família. Na linguagem comum, o álbum é frequentemente tratado como um recipiente privado de afeto, descendência e continuidade doméstica. Lopes muda esse quadro ao propor o álbum como um “arquivo branco”, uma estrutura de memória que no Brasil é inseparável do trauma colonial, da hierarquia racial e do direito desigual de aparecer, ser preservado e ser narrado. Em vez de tratar as fotografias de família como documentos neutros, a exposição questiona que tipos de vidas foram historicamente admitidas no arquivo, que presenças foram apagadas ou encenadas pela violência e como os artistas contemporâneos podem reabrir essas imagens sem entregá-las à nostalgia. Veja também Cordel não cabe nas gavetas: Marina Nabuco no Arquivo Vivo do Instituto Brincante.
A exposição reúne Anderson Feliciano, Eliana Amorim, Pedra Silva e Val Souza através de instalação, colagem, videoperformance e fotografia. Essa amplitude importa porque o projeto não apresenta o álbum em formato fixo. Trata o álbum como um método, um campo onde imagens íntimas se tornam evidência de estruturas sociais e históricas mais amplas. Nesse movimento do doméstico para o público, a memória pessoal torna-se indissociável da formação do próprio Brasil. A fotografia de família pode prometer reconhecimento, mas também traz exclusões: quem teve acesso ao retrato, cujo parentesco foi registrado, cuja imagem foi arquivada como afeto e cujo corpo foi capturado pelos sistemas coloniais e raciais como objeto, trabalho ou ausência. Veja também Alice Dote e a política íntima do olhar.

Coleções públicas
A série Reintegração de leite, de Eliana Amorim, de 2019, torna essa tensão especialmente visível. A imagem funciona através da linguagem do retrato antigo, ao mesmo tempo que a interrompe com um ato contemporâneo de reparação. Figuras associadas à memória familiar aparecem contra um campo composto de formas padronizadas, tornando a fotografia um local de reconstrução e não de lembrança passiva. A imagem de Pedra Silva, encenada em torno do banho, do cuidado e da presença corporal, aproxima-se do arquivo através de outro registo: o corpo quotidiano como portador de histórias ao mesmo tempo íntimas, racializadas e políticas. Uma terceira imagem de álbum de família, com sua concorrida cena de aniversário, insiste na dimensão coletiva da memória. Celebração, infância, abundância doméstica e desgaste fotográfico tornam-se parte de um argumento visual mais amplo sobre como as imagens de famílias negras e brasileiras preservam formas de relação que os arquivos oficiais muitas vezes não conseguiram honrar. See also Cordel não cabe em gavetas: Marina Nabuco sobre o arquivo vivo do Instituto Brincante.

A conversa realizada no Paço das Artes, no dia 9 de agosto, às 16h, com Rodrigo Lopes e os artistas Anderson Feliciano, Eliana Amorim e Pedra Silva, estendeu a questão central da exposição para a reflexão falada sobre poéticas visuais. Para o Arquivo CASCA, As nossas imagens é importante precisamente porque se recusa a separar a estética da política da memória. As suas obras não ilustram simplesmente o passado; eles testam o álbum como uma tecnologia contestada de visibilidade. Ao passar por colagem, instalação, videoperformance e fotografia, o projeto expande a imagem da família em uma linguagem crítica para a vida colonial do Brasil. O álbum torna-se menos um objeto privado lacrado do que um lugar onde se encontram afeto, ausência, raça e reparação histórica. See also Alice Dote e a política íntima do olhar.