
Carchíris: construindo memória no manguezal
Origens
Carchíris constrói imagens no ponto de encontro entre casa, paisagem e construção. Nascida em 2003 na ilha de São Luís, Maranhão, onde vive e trabalha, a artista transita entre pintura, desenho, escultura e instalação enquanto cursa artes visuais e arquitetura. Essa formação dupla é mais do que biografia: ela lhe oferece um vocabulário material. Saberes ligados à construção — superfícies, estruturas, vestígios e transformação do espaço — entram em sua obra ao lado da memória familiar e da ecologia da ilha. Carchíris contou que fazia casinhas de boneca de papel na infância e que, mais tarde, retomou a arte durante a pandemia, pintando sobre lonas de construção guardadas no quintal do avô. Em sua prática, a arquitetura se torna íntima: uma forma de perguntar como corpos, histórias e ambientes abrigam uns aos outros e como cada um também pode se tornar vulnerável. Veja também Silvana Mendes e a reparação radiante do arquivo colonial.
O manguezal que circunda São Luís é um de seus principais pontos de orientação. Em vez de servir como um fundo pitoresco, ele aparece como um sistema vivo complexo, cujas raízes emaranhadas, águas de maré e passagens lamacentas resistem a divisões claras entre terra e mar. Carchíris aborda esse ecossistema tanto como um território comunitário vital quanto como uma metáfora da memória. Os arcos repetidos nas obras selecionadas lembram raízes, juncos, costelas ou estruturas inacabadas; campos azuis sugerem água sem se fixar em uma paisagem convencional. Formas humanas e animais emergem, fundem-se e recuam dentro desses espaços. A atenção ambiental da artista é, portanto, inseparável da autobiografia. Olhar de perto para o manguezal também é reconhecer as forças que moldam uma família e um eu: interdependência, herança, erosão, reparo e a persistência da vida sob pressão. Veja também Gabriel Archanjo e a figura como campo de resistência.

Prática e materiais
Suas imagens frequentemente mantêm ternura e inquietação na mesma superfície. Uma pequena obra sobre papel áspero e irregular reúne guarás-vermelhos, uma palmeira, uma cadeira vazia e a frase manuscrita “Deus é Fiel”, comprimindo devoção, ausência e iconografia tropical na escala de uma nota privada. Nas composições maiores em azul e marrom, corpos pálidos e criaturas híbridas flutuam por uma vegetação densa e rítmica. Uma serpente se enrola em águas escuras; em outro ponto, um longo animal branco se curva pela cena como um rio, um espírito ou uma raiz exposta. Essas figuras não são ilustrações de uma mitologia estável. Sua ambiguidade mantém a paisagem ativa e psicológica, enquanto a textura visível, as dobras e as marcas em camadas impedem que o suporte desapareça atrás da imagem. A superfície faz parte da história: desgastada, provisória e capaz de carregar o que, de outra forma, poderia se perder. Veja também Terror Celestial transforma o medo em uma gramática queer de sobrevivência.

A primeira exposição individual de Carchíris, Deus abençoe o nosso amor — God Bless Our Love, foi inaugurada na Lima Galeria, em São Luís, em 2024, associando seu título a uma canção de reggae lembrada a partir de uma fotografia de seus pais. Em 2025, ela apresentou Paisagem Saudade: Vossos Campos e Pomares no Chão SLZ e participou da 2ª Bienal das Amazônias, após programas e residências no Solar dos Abacaxis, Chão SLZ, Sertão Negro e Terra Afefé. O reconhecimento por meio do Prêmio FOCO 2024, do Rumos Itaú Cultural 2023–2024 e de sua indicação ao Prêmio PIPA 2026 situa essa prática emergente em uma conversa brasileira mais ampla. Ainda assim, a obra permanece enraizada em São Luís. Carchíris não separa a negligência ecológica da história pessoal, nem a invenção formal do lugar vivido. Ela trata o manguezal como arquivo, parente e arquitetura — um terreno por meio do qual a memória pode ser reconstruída sem se tornar fixa. See also Aurelino dos Santos e a Cidade como Sistema de Signos.




