Arivânio Alves e os animais que lembram
Origins
Arivânio Alves pinta a partir do ponto onde a memória, o mito e a vida cotidiana começam a se sobrepor. Nascido em Quixelô, Ceará, em 1994, vive e trabalha em Juazeiro do Norte, onde desenvolve uma prática pautada principalmente na pintura e no desenho, além de atuar como arte-educador. A cor é um dos alicerces da sua investigação, mas nunca apenas como decoração. Cria um clima emocional, empurra as figuras para o confronto e dá à experiência popular a intensidade de uma aparição. Alves une temas mitológicos a personagens e objetos retirados do cotidiano, construindo imagens que remetem a questões permanentes: quem somos, de onde viemos e para onde podemos ir. Sua resposta não é dada como uma lição. Ela emerge através de animais, corpos, plantas, luas, pássaros e paisagens unidas por uma linguagem visual direta e deliberadamente não polida. See also Waldomiro de Deus e o Sagrado Cotidiano.
As seis obras selecionadas para este rascunho revelam o quão central os animais são para essa linguagem. Os cães, inclusive os cães de rua abandonados que são recorrentes na produção de Alves, aparecem como testemunhas, companheiros, mães e seres expostos à fome ou ao perigo. Em uma cena, uma cadela branca amamenta dois cachorrinhos sob um céu vermelho enquanto pássaros cruzam uma lua pálida. Noutra, dois cães uivam numa noite negra, os seus corpos reduzidos a um contraste elementar de linha branca e fundo escuro. Em outro lugar, um burro preto alado fica sob pássaros circulando, enquanto um tigre de duas cabeças e uma onça-mulher híbrida ocupam campos vermelhos brilhantes. Estas criaturas não são ilustrações de uma mitologia estável. Eles parecem novos mitos populares sendo formados a partir das observações do artista sobre vulnerabilidade, abandono, cuidado, violência e sobrevivência no mundo contemporâneo. See also Cordel não cabe em gavetas: Marina Nabuco sobre o arquivo vivo do Instituto Brincante.

Visual language
A simplicidade de Alves é, portanto, um método e não uma falta de complexidade. Papelão, dobras visíveis, arestas, contornos enfáticos e amplas áreas coloridas mantêm o ato de fazer próximo à superfície. Os fragmentos impressos permanecem legíveis sob a tinta, permitindo que o material cotidiano resista ao desaparecimento na imagem. As suas figuras são frontais e imediatamente legíveis, mas as suas combinações permanecem estranhas: chifres transformam-se em asas, um corpo carrega duas cabeças, uma figura humana surge entre os pássaros e a anatomia animal abre-se para a alegoria. Os recorrentes vermelhos, pretos, marrons, brancos, laranjas e verdes turquesa conferem a essas cenas a clareza dos signos, preservando sua instabilidade emocional. O que inicialmente parece ingênuo ou espontâneo revela gradualmente um cuidadoso sistema de ecos entre biografia, memória afetiva, imaginação popular e conflito social.

Há um cronista dentro desta obra, mas que registra a experiência transformando-a. Alves observa cada instante com uma atenção inusitada e aborda-o com a abertura de quem está disposto a enfrentá-lo como novo. Essa combinação confere sinceridade às suas imagens. Não pedem validação através de um vocabulário erudito, nem reduzem a arte popular à inocência. Em vez disso, insistem que a própria percepção pode ser rigorosa: olhar para um cão abandonado, um pássaro em voo, um corpo ameaçado ou uma lua sobre a vegetação seca pode tornar-se uma forma de pensar sobre a vida colectiva. Para CASCA, Arivânio Alves importa porque suas pinturas constroem uma arquitetura mental profundamente pessoal a partir de meios modestos. Nessa arquitetura, a ternura e o choque coexistem, os animais lembram o que as pessoas ignoram, e o mito permanece vivo porque continua a ser refeito a partir da rua, da paisagem e das frágeis formas de cuidado que mantêm um mundo unido.


