
Laura Pascoal e o Teatro do Excesso Cotidiano
Laura Pascoal transforma o ruído visual do cotidiano do Nordeste brasileiro em pinturas carregadas de cor, humor e fricção emocional. Nascida em Itabuna, Bahia, em 1996, morou pelo Agreste, Sertão e Zona da Mata pernambucana antes de se estabelecer em Recife em 2013. Posteriormente, estudou Educação em Artes Visuais na Universidade Federal de Pernambuco, desenvolvendo uma prática que passa pela pintura, colagem, gravura, ilustração, design têxtil e cerâmica. A pintura, no entanto, continua sendo o palco central onde suas imagens coletadas se encontram: letreiros populares, fachadas comerciais, anúncios, tecidos estampados, objetos familiares e fragmentos de espetáculo urbano. See also Aurelino dos Santos e a Cidade como Sistema de Signos.
Pascoal trata a cidade como um inquieto arquivo de imagens. A tipografia pintada à mão dos mercados de peixe, os banners em frente aos consultórios dentários, os lençóis de pelúcia estampados, os guarda-lamas dos camiões, as montras das lojas e os gráficos de moda tornam-se material para um vocabulário que é simultaneamente local e cosmopolita. Em vez de reproduzir fielmente essas referências, ela as reorganiza através da lógica intensificada do pop e do kitsch. Fronteiras, slogans, estampas de animais, corações ornamentais, chamas, estrelas e molduras teatrais competem pela atenção. O excesso torna-se um princípio organizador: as imagens colidem, mas a sua tensão é cuidadosamente controlada através de contrastes nítidos, cortes deliberados e um equilíbrio instintivo entre campos saturados de cor e passagens de descrição realista. See also Silvana Mendes e a Reparação Radiante do Arquivo Colonial.

As seis obras aqui selecionadas revelam como esta estratégia permite que o desejo e o perigo habitem a mesma superfície. Um sundae torna-se uma oferta íntima rodeada de corações; um cavalo empinado entra num proscênio decorativo marcado por pequenas feridas; botas de cowboy interrompem cenas de cavalos, fogo, cobras, armadilhas e um piso xadrez. Em outro lugar, uma serra elétrica aparece sob a frase pintada “Eu vou te contar o que sinto”, transformando a confissão em promessa e ameaça. Pascoal repetidamente toma emprestados sinais familiares de romance, masculinidade, consumo e espetáculo, e depois afrouxa seus significados esperados. Suas estruturas coladas tornam a visão descontínua: uma imagem pode inicialmente parecer um anúncio, depois se transformar em sonho, advertência, piada ou confissão. Os quadros pintados exageram essa instabilidade ao apresentar cada cena como algo já mediado, exibido e performado. Suas pinturas se comportam como cenas melodramáticas pausadas no instante anterior à divulgação, deixando o humor, a ternura, a melancolia e a ameaça sem solução.

Essa instabilidade emocional distingue a obra de Pascoal da simples citação ou da nostalgia. Suas fontes podem vir do comércio popular e da memória doméstica, mas cada composição questiona como as identidades e os sentimentos são performados através dos objetos. As botas tornam-se fantasias, os animais tornam-se duplos psíquicos, as letras tornam-se uma voz e a decoração recusa-se a permanecer secundária. O movimento da artista pela ilustração, moda, gravura e cerâmica reforça esse interesse por imagens que transitam entre a vida pública e a privada. Nas suas mãos, o aparente caos da cidade torna-se uma linguagem precisa de sensação. Laura Pascoal não arruma o mundo visual ao seu redor; ela amplia suas contradições até que o sentimento adquira peso físico e o excesso cotidiano se torne uma forma de autorretrato.






